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Apanhados…
Esta contaram-ma ontem.
Palavras do narrador…
“”Tenho um sono muito leve, e numa noite destas notei que estava alguém a andar sorrateiramente no quintal de casa.Levantei-me em silêncio e fui acompanhando os leves ruídos que vinham lá de fora, até ver uma silhueta a passar pela janela do quarto.Como a minha casa até é muito segura, com alarme, grades nas janelas e nas portas, não fiquei preocupado, mas claro que eu não ia deixar um ladrão andar ali tranquilamente.Telefonei para a polícia, a informar sobre a ocorrencia e dei a minha morada. Perguntaram-me se o ladrão estava armado ou se já estava no interior da casa. Esclareci que não. Então disseram-me que não tinham nenhuma viatura por perto para ajudar, mas que iriam mandar alguém logo que fosse possível…
Um minuto depois liguei de novo e disse com a voz calma:
- Eu liguei há pouco porque estava alguém no meu quintal. É para informar que já não é preciso muita pressa, porque eu já matei o ladrão com um tiro de uma pistola calibre 9 mm, que tinha guardada cá em casa, já há anos para estas situações. O tiro fez um belo buraco no pobre diabo!
Passados menos de três minutos, estavam na minha rua cinco carros da polícia, um carro do INEM, uma unidade de resgate, duas equipas da TVI, uma da SIC e um representante duma entidade de direitos humanos.Acabaram por prender o ladrão em flagrante, que ficou boquiaberto a olhar tudo o que se estava a passar, com cara de parvo.Talvez ele estivesse a pensar que aquela era a casa do Comandante Geral da PSP.
No meio do tumulto, o policia encarregue desta operação, aproximou-se de mim e disse-me:
-Pensei que tivesse dito que tinha morto o ladrão !!!
Eu respondi:
- Pensei que tivesse dito que não havia nenhuma viatura disponível!”
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-Numa situação quase idêntica, vivenciada por um amigo meu, a GNR apareceu mesmo, o suspeito foi apanhado dentro do quintal e justificou a sua presença com o facto de estar cheio de sede, ter visto uma torneira e entrar para beber. O cabo da GNR repreendeu o proprietário por uma deslocação inútil…Dias depois o indivíduo suspeito foi apanhado em flagrante na residência ao lado pelo mesmo cabo da GNR…
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Terras de Pão, Gentes de Paz.
Maxi-weekend! Saída a meia manhã, paragem “técnica” em Santarém e almoço em Évora num restaurante junto ao renovado mercado. A minha companheira foi pelo borrego assado, eu pelas “burras” de cebolada. O senão foram as batatas fritas de acompanhamento porque já não havia batata assada. Com os restantes adereços mais uma sericaia com ameixa de Elvas e ficou-se tudo por menos de 20€. Comidinha honesta com o senão das “french fries”, deslocadas naquele menu. Como eram já desoras, a vizinhança de mesa era o pessoal da cozinha que ora por ora nos deitava um olhar de acompanhamento e eu, porque comi talvez com a avidez do estômago vazio, fui brindado com um reforço alimentar neste propósito” Ó … atão na vês qu’este senhor tá comêndo com tanto apetite. Traz cá mais um tantinho”. Recusei agradecido, não me caísse outra “burra” no prato!!
Destino: Pedrógão, entre Vidigueira e Moura, para a pré-inauguração do Alqueva Camping-Car Park, espaço destinado a autocaravanas.
Antes de nos acercarmos do Park, demos uma vista de olhos pela aldeia de Pedrógão e surpreendemo-nos com o branco das paredes orladas a ocre amarelo ou azul, a limpeza das ruas, o ar sadio e calmo. A primeira impressão foi, pois, positiva.
Chegados ao Park, fomos recebidos “camaradamente”, foi-nos apresentado o espaço e explicadas as valências de que dispunha, bem como as perspectivas de futuro.
Penso que o local tem a seu favor alguns elementos importantes: a inclusão num um eixo viário turístico importante (Évora-Vidigueira-Moura-Pias-Serpa-Beja), numa rota vinícola e num património histórico e ambiental únicos; a proximidade de actividades recreativas ligadas à água (pesca desportiva em água doce -achigã, barbo, boga e carpa- canoagem) e muitas outras (pedestrianismo, ciclismo …).
Bem…depois foi a hora (ou o começo das horas?) de convívio…Ai Jesus!! Ainda éramos poucos mas já saltavam as brasas na zona de barbecue e saíram as iguarias regionais portuguesas, regadas a preceito. E a “coisa” repetiu-se na sexta, já com o reforço das compras em Pedrógão (há que animar a economia local, não é?), ainda no sábado em animadíssima grelhada colectiva.
Nos entretantos ainda visitámos Moura (belíssima), Pias (mais modesta mas com um charme especal) e Serpa que nos encheu de encanto e onde voltaremos em breve, quando os dias forem maiores. Não descrevo o que visitámos porque qualquer roteiro é mais eloquente que eu. Destaco na Vidigueira (Vila de Frades) duas coisas: As ruínas romano-cristãs de S. Cucufate e por coincidência temporal a Vitifrades, uma feira regional de produtos da terra. Que chatice…vieram mais uns queijos, uns enchidos, umas garrafitas…
Saímos sábado à noite. Chegámos pela meia-noite. Ficou um inigualável convívio, uma região que vale por si, uma estrutura autocaravanista digna e à espera de quem a mereça.
O Alqueva Camping Car Park é uma estrutura particular, a pagar pelos utentes. Numa altura em que crescem as estruturas municipais ou locais, em parte por iniciativa e sugestão de associações de autocaravanistas, umas gratuitas outras com pagamento ajustado ao utilizador (paga apenas o serviço e gastos inerentes), surgem aqui e ali iniciativas particulares como forma de investimento. Estamos também numa outra altura em que no seio autocaravanista se levantam vozes que defendem a livre utilização dos espaços públicos de estacionamento, com responsabilidade e civismo, respeitando normas instituídas, reclamando direitos automobilísticos iguais a qualquer outra viatura. Tornar-se-ia pois, algo contra-corrent criar uma estrutura particular de parqueamento de ACs em tempo de crises. Mas é assim que se fastam as crises, avançando, criando, construindo. Pareceu-me também que também se procurou criar um lugar de fruição autocaravanista e um ponto de encontro numa região singular. Um gesto de um autocaravanista para outros autocaravanistas. Oxalá perdure com sucesso.
O universo autocaravanista é vasto: coabitam as mais variadas tendências relativas a prática da “modalidade” e à forma de a encarar e, dentre elas o posicionamento individual face ao estacionamento, desde o exercício livre, uma posição intermédia e a utilização de estruras comerciais, vulgo parque de campismo ou similares. O universo da oferta de serviços para autocaravanismo, e não me refiro a venda e manutençao, mas sim a parqueamento de curta e média duração não é tão vasto mas é considerável. Deixando de parte a questão dos números, isto é, quantos são os que praticam o regime livre, ou o intermédio ou os utilizadores dos parques e similares, importa ponderar brevemente e sem grande rigor a questão do estacionamento/parqueamento.
Sabemos que a associação dos proprietários/concessionários dos Parques de Campismo (PC) gostariam de ver as AC dentro dos Parques ou que, pelo menos, recolhessem aos parque para pernoita. E do outro lado há os avessos aos PC. Conciliar os dois é difícil. Os primeiros reclamam do retorno do investimento realizado, da concorrência das Áreas de Serviço (AS) municipais, da higiene e salubridade de algumas práticas autocaravanistas, etc… Os segundos afirmam a sua liberdade de decidir se vão ou não para o PC. Complicado. Pelo meio alguma legislação municipal e nacional que pouco clarifica, antes baralha e dá de novo. Solução? Estou a lembrar-me que numa revista francesa da especialidade se noticiava que as associações de AC locais (ou nacionais?) se tinham reunido com as associações dos proprietários/concessionários de PC para chegarem a um entendimento. Imagino que a argumentação tenha sido mais ou menos dentro do figurino descrito acima. Mas também me lembro que foram algumas as soluções apresentadas: redução de preços tendo por base a área de ocupação (há tendas que ocupam mais espaço que uma AC …e nos ferries também é assim), criação de áreas específicas para AC com ou sem acesso a instalações sanitárias e outras facilidades do PC, criação de zonas de passagem breve (pernoita/etapa) a preço reduzido, permissão de manutenção sem necessidade de pernoita e, enfim, outras ideias surgirão sempre numa reunião deste teor. A questão é saber se há vontade e quem são os participantes. Se acontecer, que seja sem jogadas, sem negociação de bastidores, sem conluios. E que os interlocutores sejam válidos e representativos, sobretudo do lados dos AC. Mas, aí, é outra a questão.
Nesta, em particular, seria naturalmente benéfico uma discussão e uma legislação objectivas.
Por mim, mantenho-me fiel ao princípio da necessidade/oportunidade, isto é, se preciso uso um PC, se não preciso, não uso. Forçado, não.
Longa vida ao Camping-car Park. Até à próxima visita.
Mudam-se os tempos, mudem-se as vontades.
Eu podia invocar Camões: “Todo o mundo é composto de mudança/ Tomando sempre novas qualidades.” E invoco mesmo…e afirmo como ele “Que não se muda já como soía”, ou seja, não se muda como se costumava mudar. O poeta, espanta-se, perplexo, com a novidade desta mudança que não compreende, que foge à habitual forma de mudar.
E como é que se costumava mudar? Pois bem, uns mudavam e outros aceitavam, iam atrás. Foi assim que fomos educados…alguém mudava por nós e quando não mudava, aceitava-se também a imobilidade, o marasmo. Acentua-se aqui a aceitação da mudança, ou não, e o facto de isso ser exterior a nós. Não éramos agentes da mudança, mas pacientes. Não éramos ativos, mas passivos. E agora?
Já referi noutros textos que nós, portugueses, não gostamos de mudar. Temos rotinas, temos percursos, temos hábitos, temos estatutos, temos ideias e tudo quanto seja novo e nos peça mudança é visto como um estorvo, uma “chatice”, uma “modernice”, quando não uma exibição pessoal e manifestação egocêntrica. Pois é… foi sempre assim, porque somos produtos de uma forma absolutista de pensamento: “tu não precisas pensar, eu penso por ti”. E nós…aceitamos. Todos?
É sabido que defendo a autonomia do autocaravanismo em relação ao campismo e caravanismo, a separação formal com estas duas atividades com as quais, reconheço, há pontos comuns (desde logo a origem) mas muitos mais pontos divergentes, como já explanei noutros escritos. Não renegando esta origem comum, o que nos separa é já tão evidente, que me parece quase patético tentar agarrar e manter agarrado o autocaravanismo ao campismo e caravanismo. Mais sensato seria, a meu ver, que as federações campistas que reclamam para si a inclusão do autocaravanismo, perante este desejo de autonomia, mudassem e reconhecessem que os tempos e as tecnologias ditaram diferenças que são incomparáveis. Na sequência, também me parece que clubes, associações ou outras agremiações autocaravanistas que se mantêm associados a estas federações, não compreenderam nem acompanharam a evolução que o autocaravanismo teve nos últimos tempos, em números, em tecnologia, em autonomia, em mobilidade… Acaso não pensam por si? Têm receio de se autonomizar ou juntar a outros que já assumiram a sua autonomia? Talvez tenham perdido a oportunidade de o fazer e por orgulho envergonhado não o fazem…
Um fórum autocaravanista cortou há tempos a ponta que o unia ao caravanismo. E fê-lo, se bem me lembro, por ter chegado à conclusão que se representavam duas realidades já muito diferentes, aqui e ali com pontos de interesse comuns mas que traçavam destinos diferentes.
A isso chamo mudança, por vezes fraturante, por vezes dolorosa, mas são as dores do crescimento.
Por mim, aceito a mudança, não me espanto como Camões: vivo noutra era, sou moderno, interpreto o correr dos tempos.
Parafraseando o anuncio da TV, podia aceitar que uma federação contivesse uma secção de AC, mas se tiver uma outra devotada exclusivamente ao AC, não será certamente a mesma coisa.
A todos, bons ventos de mudança.
Resiliências…
Vivam!
Acabo de ler o livro “Os Portugueses” de Barry Hatton, editado pelo Clube do Leitor, 2ª edição, maio de 2011. Este livro foi escrito por alguém que viveu (vive) em Portugal nos últimos 20 anos e que tem uma visão exterior e neutra do que são os portugueses e Portugal. O livro foi escrito para estrangeiros e só mais tarde traduzido para português. Livro interessantíssimo que resume a história de Portugal, anotando criticamente os principais momentos dessa história, as misérias e glórias deste país de oportunidades perdidas, comentando com ironia as singularidades deste povo.
Dele poderia retirar muitos traços que nos caracterizam, mas fico-me por estes: “Por natureza, os portugueses não são dados a reunir esforços” (pág. 60) ou “No fundo da alma dos portugueses há uma vontade de contrariar” (pág. 235), ou inda na mesma página “ Um bom português nunca está de acordo.”
Também nesta questão do “ideal autocaravanista” há muito desacordo e parece-me mesmo que algum é “só para chatear”, uns e outros insistindo nas suas ideias e convicções. Nada contra da minha parte, mas pouco produtivo.
Pede-se a definição de um ideal, mas até agora só apareceu uma, logo diluída e alargada a outros referentes. Uma vez mais nada tenho contra, mas parece-me um alargamento desvalorizante, na medida em que se reconhece que os referentes são distintos. De facto, e repito-me, cada um definirá o ideal que entender, aquele onde se quiser rever, embora deva reconhecer aos outros, na definição do seu ideal, um princípio base de autonomia. Tem pontos de contacto com outros? E daí?
Há que entender uma coisa: o autocaravanismo quer independentizar-se, quer autonomizar-se uma vez que chegou a um estado maduro: sabe o que é, o que necessita, para onde quer ir. Pretender amarrá-lo a um conceito (o de campismo) do qual sente não fazer parte formal, é cercear uma liberdade que é um direito.
O autocaravanismo não é apenas mais uma modalidade de turismo itinerante, inclui uma vertente automobilística, um código ético e uma identidade plasmada numa federação.
Os “ventos” da Europa apontam para a frente, para a autonomia do autocaravanismo, primeiro em associações locais e depois em federações nacionais. Em Portugal, uma vez mais, aponta-se para trás, para a tradição –o campismo, todos iguais- que nos afasta da modernidade.
Como diz Barry Hatton, é “a relutância em mudar, a suspeita sobre a ambição, o impulso e a visão” que algemam o país. Neste caso, o autocaravanismo.
Boa semana.
Do Cebreiro milagroso à maresia de Ribadeo
Jornada 7 – 12 de Agosto
Alvorada e saída do camping.
Café no bar e mudança de águas em local indicado pelo sr. Eliseu. Como não tem estação de serviço no camping, improvisámos. Porém, desta falha, depois de uma conversa onde lhe expliquei o como e o porquê de uma AS, resultou a promessa do sr. Eliseu em construir uma até ao próximo Verão…
Saímos de novo para Villafranca del Bierzo. Estacionámos no mesmo local, a Alameda, e iniciámos a visita à Calle del Água, uma rua comprida, adornada de casas brasonadas, varandas magníficas e pequenos recantos tranquilos. Curta visita ao mosteiro das carmelitas descalças, freiras em clausura, com uma igreja barroca simpática e bem tratada. Regresso ao centro, para a imponência da igreja/colégio jesuíta de S. Nicolau la Real, monumento granítico de grandes proporções, traça imponente, renascentista e barroco. No canto esquerdo guarda um pequeno museu de história natural, a 1€ a entrada. No mercadinho agrícola local comprámos a legumes e figos.
O destino próximo era o monte do Cebreiro, seguindo a rota compostelana. Da planície do Bierzo, a estrada nacional vai seguindo o rio e a Autopista do Noroeste, começando a subir até às alturas de Pedrafita do Cebreiro. Dali sobe-se um pouco mais até O Cebreiro (1300m), lugar onde começa a parte galega do caminho de Santiago. O lugar organizou-se à volta do templo de Santa Maria La Real, igreja pré-românica do séc.IX. O templo consta de três naves separadas por pliares e rematada por uma tripla cabeceira. No interior destaca-se a capela de S.Bento ( a igreja é beneditina) e a capela do milagre (onde o pão se fez carne e o vinho se fez sangue, em razão das dúvidas acto eucarístico do padre que oficiava a missa e perante o testemunho da Virgem. Aqui está o Cálice do Santo Graal (todos o sabiam, menos os Cavaleiros da Távola Redonda e o Indiana Jones) e uma imagem da Virgem do séc.XII. Conserva também uma enorme pia baptismal para imersão dos candidatos ao baptismo.
Ao lado está a hospedaria de S. Geraldo de Aurillac, construída sobre o primitivo hospital de peregrinos. O lugar é peregrino-turístico, com restaurantes, lojas de lembranças, restaurantes e alojamentos. Curiosas são as “cortes”, construções circulares cobertas de giesta bem aparada, que serviam de habitação e curral de ovelhas. Aliás, ali pode comprar-se um queijo de pasta fresca e mole bem como um pão óptimo, típicos da região. Entrados na igreja, feitas as orações, a minha companheira resolve deixar umas moedas em cima de um balcão (e na ausência do funcionário) para pagamento de uns postais e folhetos que retirara. Saímos. Rua abaixo, detivemo-nos na leitura do menu de um dos restaurantes e apercebemos do alvoroço de uma senhora que perguntava por alguém que tinha deixado um porta-moedas na igreja. Era da minha companheira….com as moedas, deixou tudo!! Milagre! (Ainda há gente honesta…) 
E fomos almoçar…grelhado misto com batatas fritas e vinho da região.
Baixámos a Samos e parámos para ver e não visitar o grandioso mosteiro, ocupado esse dia por dezenas de jovens em retiro espiritual. A lado, à beira rio, junto da capela pré-românica, em sítio fresco e sombrio, uma AC austríaca repousava discretamente… Esta capela, muito simples e pequena, de uma só nave, é comovente. 
O mosteiro dispõe de estruturas românicas, góticas, renascentistas e barrocas, amostras da sua construção em diversas épocas, desde sua fundação no século VI. Localização: 42° 43′ 54.3252″ N, 7° 19′ 34.1904″ W.
O dia estava quente e a temperatura no vale de Samos acima dos 30º. Ao longo do rio algumas praias fluviais convidavam ao banho. Hesitámos algumas vezes mas decidimos continuar. Passámos Sarriá e, por opção, decidimo-nos contornar Lugo e seguir por Vilalba, aproveitando as autopistas. Seguiu-se Mondoñedo e finalmente Ribadeo. Ali, o nosso destino era o porto de pesca, local referenciado como ponto de pernoita tolerado. A cidade já a conhecíamos de outras andanças, pelo que, cansados da viagem resolvemos encostar, comer e sair um pouco para desentorpecer as pernas ao longo do passeio marítimo. Ainda assim, fizéramos 270km…
No local de estacionamento, 4 ACs já estavam a posto de pernoita. Chegariam mais umas quantas durante a noite, pelo que, de manhã, seriam uma dúzia. O local é tranquilo e, porque era fim de semana e não havia movimento no porto, mais tranquila foi. O nosso passeio pós-jantar estendeu-semais uma vez pelo passeio marítimo até ao pontão debaixo da ponte que separa a Galiza das Astúrias. Regressados à AV, foi hora de televisão até chegarem os nossos amigos de Lagos, com quem iríamos passar uns dias. Eles chegados e depois de alguma conversa e uma cerveja fresquinha, hora de dormir. Excepto algumas chegadas e partidas nocturnas, tudo bem.
Sem botillo mas com bisteca
Jornada 6, 11 de Agosto : Sem botillo mas com bisteca.
Acordar e pequeno-almoço. Pneus à estrada até Cacabelos, em pleno caminho compostelano. Peregrinos na estrada, vinhas a perder de vista e adegas a chamar ao néctar de Baco. Estamos no coração do Bierzo. Estacionámos à entrada da vila/cidade e fizemos a pé o percurso para o centro. Compras em supermercado, pêssegos e outra fruta de grande qualidade e preços em conta. Nada monumental, a cidade alinha-se ao longo da rua principal e vive de serviços e das vinhas. Para a carne, escolhemos uma carniceria numa viela estreita. Serviço familiar e simpático com carnes de “finca”. Bem servidos, perguntámos pelo botillo (em transmontano butelo), o prato regional do Bierzo. Consiste o dito botillo num enchido com as aparas da desmancha do porco e que inclui a língua, orelha, chouriço, costelinha, ossinhos da suã, vários condimentos…e tudo introduzido no bucho (o cego) ou da bexiga do porco, atado, cozido e posto no fumeiro. É uma comida de inverno daí que, embora havendo-o na carniceria onde nos abastecemos, industrial, foi-nos dito que esperássemos pelo inverno, pois tinham-no de fabrico próprio, artesanal. Pois…lá se foi o botillo, mas não a vontade de o trincar. Do Bierzo não, mas butelo transmontano talvez, com batata e casulas a acompanhar.
Gastronomia resolvida com a compra de umas garrafas de vinho da região, tinto Mencia, das adegas da região, pusemo-nos a caminho do lago de Carucedo, na vizinhança das Médulas, lugar já conhecido e referenciado como bom spot recreativo para umas banhocas vespertinas. Assim foi, banho atrás de banho, que a tarde estava quente.
Regresso ao camping para umas bistecas de ternera suculentas. Noite calma, precedida de um serão no bar do camping a bebericar uns orujos digestivos.
Trutas e dolce far’niente
Dia de nada fazer, excepto ir às trutas. Eu pesquei 2 de tamanho médio, suficientes para dois, amanhei-as e guardei-as para o jantar.
Durante o dia, convívio com o capitão Théo e sr. Eliseu (os três a falar português!) umas idas ao bar do camping para café ou caña e uma soneca preguiçosa na AV.
As trutas fi-las abafadas na caçarola, com batatinhas cozidas e uma salada.
Ao jantar, partilhámos ainda uma garrafa de tinto com um casal de Valência, Fernando e Diana, simpáticos e faladores, em trânsito para a Galiza. ACs há mais de trinta anos, de grandes experiências e aventuras, partilhámos algumas ideias sobre os nossos trabalhos e chegámos à conclusão que em Portugal e Espanha, as preocupações e as esperanças são as mesmas nestes tempos difíceis.
Mais uma noite calma,abafada mas fresca pela madrugada.
O Bierzo – El Brejeo
Voltando um pouco atrás, à chegada, estacionámos na praça ajardinada, em espinha, bem dentro do nosso espaço. No posto de turismo em frente ecolhemos alguma documentação e informação sobre o camping onde ficar essa noite. E fomos então de visita à “pequena Compostela” como é por ali chamada. Comecemos pela Colegiada de Santa Maria, dos meados do séc. XVI, pelo que incorpora traços do gótico final e do renascimento. Foi manada construir por D. Pedro de Toledo, vice-rei de Nápoles, no tempo em que o império espanhol se estendia à Itália e à Sicília. No interior destaca-se o jogo geométrico da abóbada, com a sua cúpula central construída em pedra miúda, xistosa, à vista, sem reboco. Muito bela e original.
Infelizmente, o castelo de Villafranca, dos meados do séc. XV, com a sua figura apalaçada, não é visitável por ser residência particular de um compositor famoso. Deixámos o resto para outro dia e fruímos apenas a cidade. Deslocámo-nos então a Vilela, povoação ali ao lado onde pernoitámos 3 noites. O camping é El Brejeo é gerido pelo sr. Eliseu e pela D. Florinda, ela transmontana e ele galego, gente simpática e simples. O camping não tem infra-estruturas para ACs, mas o alvéolos são generosos, bem iluminados e relvados. Maioritariamente, é frequentado por peregrinos a caminho de Santiago (ciclistas e mochileiros), caravanas e algumas ACs e AVs, como nós. O espaço geral é muito verde, não totalmente ocupado e, como nota singular e inesperada, tem aquilo a que os brasileiros chamam “pesque-pague”. O camping tem dois lagos: o mais pequeno é um charco de caniço e tabua larga e o maior, com a área de um campo de futebol, uma zona recreativa de pesca à truta. O sr. Eliseu fornece o “material” (cana-da-índia, bóia de cortiça e anzol) e o isco (milho cozido), o “pescador” a sua arte. No fim, pesam-se as trutas (7€ o kilo) e, por norma, a srª Florinda frita-as, se essa for a vontade do “pescador”. Há limite de capturas, não são permitidos abusos. É um meio de obter peixe fresco…para quem gosta de trutas.
Conhecemos ainda o “capitão” Théo, nosso vizinho de alvéolo, também ele a caminho da Galiza, Porto Son, onde tinha alguns amigos dos tempos de embarcado. Théo é holandês, velho marinheiro mercante desde os 15 anos, conhecedor do mundo, poliglota e imprecativo (fala português quase perfeito, aprendido com uns “filhos da p*** de Gaia”, segundo ele), divertido e falador. Ofereci-lhe uma garrafa de bom vinho português (herdade da Espirra) mas quem o apreciou foi a mulher, que repetiu várias vezes “very good, excellent”. Théo, já reformado, goza a vida na companhia da mulher, do canito e da sua AC, pela Europa fora, visitando amigos e países dos quais só conhece as cidades portuárias.
Dormimos enfim, sob o céu magnificamente estrelado da Estrada de Santiago (a Via Láctea), a Lua Cheia e o coaxar das rãs. Que mais se pode querer?
De Peñalba ao Bierzo
Dormimos bem em Ponferrada. Fora alguns ruídos nocturnos, carros que vão e vêm, o sempre presente carro do lixo a desoras e outros, não nos podemos queixar. Pequeno almoço a bordo e café da manhã já na cidade. Objectivos: o posto de turismo e o castelo templário. O primeiro foi fácil, era perto, bastou seguir a rua para poente e subir ligeiramente. Igual para o castelo. O castelo merece efectivamente uma visita. Com um centro interpretativo virado para as crianças e adolescentes, os textos são claros e os manequins expostos mostram-nos as vestimentas da época, a identidade dos templário, a sua história e a evolução do castelo. No interior do pátio prosseguem as escavações.
Ponto alto da visita é a recente exposição, que será permanente, de fac-símiles (cópias exactas do original, a cores) de alguns códices medievais (baixa e alta idade média), sobretudo livros de horas e outros livros de oração, profusamente iluminados. Verdadeiras maravilhas. No fim da visita, protestei educadamente não ter visto ali o Livro de Horas de D. Manuel I, um dos mais bonitos do género e de um país peninsular. A resposta foi também educada e convincente: não está exposto por não ter sido ainda devidamente tratado, por falta de espaço e por política de renovação do acervo, isto é, não os querem mostrar todos de uma vez, há que criar alguma apetência e surpresa. Acreditemos… A exposição de livro antigo é interessante e. só por si, vale a pena.
Continuámos a visita pela cidade, nos sítios costumeiros: igrejas, algumas lojas, padarias, supermercados, livrarias (muitas), tentando sentir a cidade, interagir com as pessoas.
O guia que levávamos e um grande outdoor frente ao Turismo convidavam-nos visitar o Vale do Silêncio e um mosteiro perdido na montanha, Penãlba de Santiago. O primeiro é constituído por uma sucessão de lugarejos, num vale ali próximo, em construção tradicional e alinhados ao longo de um curso de águas limpas. O acesso até ao primeiro lugarejo é simples e fácil, embora haja que ter cuidado com as varandas de madeira e as ruas estreitas, muito estreitas. A placa indicava 24Km até ao mosteiro, mas nada informava sobre o calvário que é chegar ali. Se lhe adicionarmos o regresso, são 48Km de pura adrenalina. A estrada é estreita, muito estreita, cabendo apenas um automóvel. Os pontos de cruzamento são espaçados, as curvas cegas, os cotovelos sucedem-se em subidas ou descidas de doze graus de inclinação. Na AV…silêncio…a expectativa da próxima curva era grande. Em alguns troços os castanheiros roçavam as clarabóias, a ravina à esquerda era meeeesmo profunda com um rio de águas cristalinas que, aqui e ali, tinha uns cartazes que diziam mais ou menos “ bebemos desta água; não a polua”. As esquinas da montanha, em algumas curvas ameaçavam a carroçaria da Av, pelo que a marcha era lenta, muito lenta, tornando a distância interminável. A companheira de viagem, calada como eu, não aguentou o silêncio. “Diz qualquer coisa”. O silencia era a apreensão pelo resto da viagem…
Umas últimas subidas em 1ª velocidade e, finalmente, Peñalba de Santiago e a sua igreja do séc. IX. À entrada da pequena aldeia, um parque lajeado a xisto acolhe os visitantes. Exígua para as manobras da AV, ficámos de fora, já voltados para a saída.
Visitámos o lugarejo, muito limpo, arrumado, sem carros e sem uma única casa degradada. Tudo renovado, com alguns espaços comerciais, bar e restaurante, casas de recuerdos e artesanato, um pequeno alojamento. Infelizmente a igreja estava fechada nessa tarde. Normalmente a chave está no pequeno supermercado, que se dispõe a abrir a igreja quando há visitantes. Nesse dia…fechado! É preciso ter azar…valeu a paisagem espectacular, a altitude, o ar despejado e seco, a água que corria pelo meio da aldeia fresca e límpida, a igreja vista por fora, a aldeia impecavelmente limpa e renovada.
A descida é tão difícil quanto a subida e foi com alívio que entrámos novamente na estrada nacional e em Ponferrada. Decidimos então e na hora prosseguir com a exploração da região de Bierzo e dirigir-nos à sua “capital” Villafranca del Bierzo, a vila das colegiadas e das 5 igrejas. Entre elas, na mais antiga, que sustenta a “porta do perdão” cruzámo-nos com dezenas de peregrinos de Santiago que, ao fim da tarde se aproximavam do albergue mesmo ali ao lado. Nesta “Porta do Perdão”, na lateral da iigreja (ver figura) eram amnistiados os peregrinos que, por qualquer razão, não conseguiam fazer o percurso até Santiago.
(continua).
JORNADA 3 – Férias 2011 – Na terra das meigas…
Dia 8 de Agosto
Abandonámos a AV logo após o pequeno-almoço e demos uma meia-volta pela povoação Las Médulas. Aqui e ali já vários visitantes se preparavam para a visita: calções, botas de outdoor , bordões, etc. Voltámos atrás, ao centro de interpretação, e pagámos o 1,5€ de entrada para ver o pequeno vídeo e os painéis informativos sobre o lugar.
Las Médulas foi a maior mina de ouro a céu aberto de todo o império romano. Imaginem um monte formado no fundo de um antigo mar, há milhões de anos. Imaginem que esse mar desapareceu e que ficaram os montes, que se cobriram de vegetação e que fazem parte de um sistema montanhoso. Continuem a imaginar que por cada m3 de terra (cascalho, calhau rolado e argilas) havia, nos estratos mais ricos, 65 mg de ouro. Contas feitas, seria necessário remover e “peneirar” 15,38 m3 de terra para um grama de ouro, ou 15384,6 m3 de terra para um quilo de ouro. Ora em dois séculos, calcula-se que foram retirados dali cerca de 6 toneladas de ouro, ou seja 92 307 600 m3 de terra removida e peneirada. Com trabalho escravo, claro! Pois, que o diga o povo Astures, mais os prisioneiros de guerra, mais os que não sendo nem uns nem outros foram ali forçados a trabalhar. A mineração constituía num processo a que os próprios romanos chamaram ruina montium, ou seja, desmoronar ou arrasar o monte. Como? Fácil… faziam-se galerias no monte, do tipo queijo suíço, enchiam-se de água e depois, com o peso da água e o enfraquecimento das galerias o monte ruía e os detritos eram conduzidos por calhas até à zona das peneiras. E de onde vinha a água? A água era captada em vários rios envolventes, por vezes a uma centena de quilómetros dali e, por desnível, entre túneis, “levadas” e aquedutos de madeira, conduzida até ali. Imagina-se quão gigantesca foi esta empreitada (os romanos eram excelentes engenheiros), quantas mortes e quanto sofrimento ali se desperdiçou para enriquecer meia dúzia de nababos romanos. As águas ali usadas deram origem a dois lagos artificiais que ainda existem: o Lago Sumido e o Lago de Carucedo.
E começamos a visita seguindo um trilho bem demarcado, cerca de meia hora em passo de passeio, entre carvalhos, giestas, urze, muitos castanheiros. Um trilho sempre à sombra, com pouco desnível, óptimo para todas as idades. Há outros percursos mais longos mas este que nos leva à Cueva Encantada e à Cuevona, bocas de grandes galerias inacabadas, é o essencial da visita. 

O resto é a paisagem grandiosa dos vários montes, alguns cortados a meio, fazendo enormes paredes verticais de cascalho vermelho das argilas ou outros em formas estranhas modeladas pela erosão da chuva e dos ventos.
Regressados à AV e saídos do parque, tomámos o caminho do miradouro de Orellán, para ver do alto a extensão de Las Médulas. Esta visita é imprescindível, pois, sem ela não se tem a visão de conjunto do complexo mineiro nem a sua amplitude.
Sublinhe-se que este percurso até ao miradouro é bastante íngreme e estreito, com alguns cotovelos e, sobretudo, já perto do parque de estacionamento há que ter cuidado com as varandas das casas pois são bastante salientes. Atenção sobretudo às AC capucine. Ainda no Miradouro e por 2€ é posível visitar uma galeria de cerca de 200m que se abre em janela, a meio de um monte, sobre Las Médulas. São fornecidos uma lanterna e um capacete, já que a galeria não é iluminada.
È um passeio divertido.
Descemos depois até ao complexo de lazer de Carucedo, à beira do lago homónimo, onde estacionámos com mais ACs (2) em parque gratuito e aproveitámos tarde para “lagartar” à beira do lago, à sombra, num extenso relvado bem tratado, e tomar uns magníficos banhos: águas mornas, límpidas e um ambiente natural extraordinário com garças, galeirões, patos mergulhões, achigãs e outra bicharada. O bar de apoio é grande, tem mesas para pic-nic e serve umas sandes de presunto local que é uma canseira comê-la toda, tal o tamanho e quantidade. Bem… já não falo do branco fresquinho ou dos tintos das adegas de Valdeorras, ou uma cerveja para acompanhar. Há sanitários e é possível a pernoita num parking asfaltado e nivelado, junto à estrada, o que é comum, diz o barman. É um local para famílias e elas aproveitam-no pois, durante a tarde, enche.
Depois de bem banhados e ensolarados, que o dia estava quente, continuámos para Ponferrada, onde estacionámos e pernoitámos, no parque junto ao albergue dos peregrinos de Santiago. Já ali se encontravam outras ACs, dispersas, pelo que escolhemos o lugar que mais nos conveio, junto ao muro a nascente. Lugar tranquilo após a meia-noite e seguro. Entretanto, como chegámos pelo fim da tarde, passeámos pela parte histórica da cidade, bebi uma caña, fomos ao posto de turismo e ainda fizemos umas compras num supermercado do centro. Jantar a bordo e mais uma volta a pé pelo fresco da noite. E óó, que o dia foi longo e cheio de novidades. Amanhã visita detalhada a Ponferrada e logo se vê…
Parque de Ponferrada: N 42 23’ 38.81’’; W 6 35’ 11.60’’



